Notícia cadastrada em: 24/05/2010 - 10:39:59
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Flávia Tronca, Artista Plástica e Escritora

O que a levou a escrever o recém lançado livro "Moda, Design e Modernidade"?

O livro "Moda Design e Modernidade" é fruto de muita pesquisa em moda e imagem que só foi possível a partir de experiências como pesquisadora em Estética realizada no Mestrado e das orientações dos excelentes professores do Curso de Moda da UDESC.

Fale um pouco sobre as contribuições da ilustradora Renata Perito e do professor Beirão Filho para a publicação do livro.

Renata Perito, a ilustradora do livro e agora estilista formada pela UDESC, foi uma aluna de destaque no Curso de Moda que recebeu indicação do Professor Beirão para este trabalho.

O Professor Beirão, por sua vez, é um grande incentivador de pessoas que buscam nele orientação ou sugestões. Como arquiteto de formação traz sua experiência de forma diferenciada em sala de aula no Curso de Moda da UDESC. Viveu em Paris onde estudou e trabalhou por um período considerável acumulando preciosidades em experiências. E, assim, foi com este professor traçadas as diretrizes dos capítulos e direcionamento do texto para que pudesse ser utilizado de forma efetiva pelos estudantes nas áreas de design e moda. Beirão também escreveu a apresentação do livro.

O profissional que trabalha com moda precisa estar atento aos comportamentos humanos para desenvolver suas criações. Como a moda se materializa em produtos de consumo?

Moda é um sistema complexo que não pode ser explicado tomando apenas uma de suas facetas: a moda é a dinâmica que produz modernidade.

O vestuário propõe o exercício da moda, mas é a moda que atua no campo do imaginário e dos significantes, fazendo parte da cultura. Pode ser entendida como um conjunto de textos que relacionam elementos de vida.

Assim, para que o produto de moda se materialize é preciso gerar um eficiente processo de pesquisa e de leitura do espírito do tempo, conhecer o sistema de moda muito bem, sua dinâmica, desde a fabricação dos seus materiais e pigmentos, passando pela criação, modelagem, produção, marketing, distribuição e venda até chegar ao descarte sustentável e ecologicamente correto. Um exaustivo trabalho de pesquisa!

Como o pesquisador trabalha para transformar suas ideias inovadoras em algo que não seja interpretado como simples cópia do que já foi apresentado em outras épocas?

O que move a moda é a necessidade de imitação de um grupo, sem a qual a moda não ganharia tal proporção. Porém, a imitação sozinha não produz a moda, pois a principal característica da moda é a novidade.

Assim, mesmo que os estilos de épocas sejam usados como referência forte na criação de um produto de moda, para que ele faça sucesso é preciso "linkar" ao novo, à modernidade.

A moda não chega a ser cíclica, mas helicoidal, uma vez que o fator tempo não a deixa voltar ao mesmo lugar, mas a uma proximidade à referência anterior.

Por isto, não falamos de um círculo onde voltamos ao ponto inicial, mas de uma espiral ascendente trazendo novas tecnologias, interpretações e até mesmo formas diferenciadas de uso.

As vestimentas passam a ser objetos de "hieróglifos sociais" que escondem e comunicam posições sociais daqueles que as vestem.

Em um trecho do livro você afirma que a moda é retrato de uma época. Quais aspectos da humanidade são possíveis desvendar através da análise da moda?

Na Idade Média ocorreu uma incompatibilidade entre o ideal cristão e o entendimento do belo. Acreditava-se que a beleza despertava a sensualidade, que não era aceita e, ainda, era considerada pecado para a Igreja.

Podemos afirmar que a Moda surgiu após a Idade Média, no ocidente.

As transformações na sociedade medieval ativaram o processo de individualização, destacando o prazer pela vida presente.

Muitas foram as mudanças, mas podemos elencar as mais importantes para que o Sistema de Moda pudesse existir e evoluir até hoje:

1- desqualificação do passado e, por conseqüência, o prestígio ao novo e ao moderno;
2- crença no poder dos homens para criar o seu mundo;
3- adoção da mudança como normativa permanente e prazerosa para a vida;
4- definição do presente como eixo temporal da vida;
5- aceitação da variabilidade estética;
6- proposição da iniciativa estética, da fantasia e da originalidade entre os indivíduos.

Com o Renascimento, princípios como o medo e o pecado foram substituídos pelos valores resgatados da antiguidade greco-romana, colocando o homem no centro de tudo.

Daí em diante muitas foram as transformações ocorridas no campo da Moda.

Em sua visão, a moda e o design estão mais ligados à estética do que à arte. É possível converter criações do design/moda em obras de arte?

Podemos dizer que a experiência estética acontece na relação do sujeito com o objeto ao senti-lo como belo. Ao escolhermos uma roupa, por exemplo, percebemos imediatamente a sua função utilitária, mas preocupamo-nos, também, com a aparência inerente à peça.

Hoje, a vestimenta também é criação visual. O design evoluiu e o que hoje é criado não mais se assemelha aos produtos produzidos em série após a Revolução Industrial. O preço é importante, mas se a peça não tiver qualidade e design o produto estará fora do mercado.

Alguns estetas tradicionais dividem a experiência estética em dois tipos de relacionamento: os práticos ou funcionais (um abajur, um automóvel, uma roupa, etc.) e os estéticos (as obras de arte). Outros acrescentam que o próprio fato de uma imagem "funcionar esteticamente" tem, em si, uma utilidade.

Assim, podemos dizer que não existe sentido em colocar o design e a moda no mesmo contexto da arte. Porém, a moda e o design também possibilitam a experiência estética e estão cada vez mais próximos da arte.

Exemplo disto está nas grandes criações de estilistas que resumem em seus tecidos, fios e modelagens o espírito do tempo criando verdadeiras revoluções de sentidos. Não serão estas também obras de arte?

Muitos grupos identificam seus estilos a partir do modo de se vestirem. Como o designer precisa interpretar essa transferência de valores com os quais o sujeito se relaciona?

O corpo e a roupa formam uma unidade complexa de texto. Ao usarmos as roupas, marcamos nelas a nossa forma, deixamos o nosso cheiro e imprimimos a nossa história. Nesse percurso, a roupa passa a ser um instrumento no exercício da moda, pois é nela que registramos a nossa história.

As sociedades, desde as mais primitivas às mais sofisticadas e atuais, utilizam roupas e ornamentos para transmitir informações. Assim, como podemos ler as expressões faciais das pessoas ao nosso redor, também lemos os sinais emitidos por suas roupas e fazemos inferências. Essa comunicação não-verbal - a linguagem da moda - pode ser aprendida como qualquer outra linguagem.

Como está o incentivo às pesquisas e às discussões teóricas no campo da moda? O meio acadêmico abre o devido espaço para debates e experiências no ensino da moda/design?

Cada vez mais estas discussões se fazem necessárias, pois a moda, além de ter um peso econômico enorme gerando divisas, traça indicativos da identidade cultural de um Estado como Santa Catarina por exemplo, e também frente a uma Nação como o Brasil.

As sandálias havaianas, as roupas de praia, e novas marcas como a Osklen, entre outras, trazem o Brasil na essência das suas coleções mostrando o país no exterior de uma forma positiva.

Além de possibilitar a construção das identidades pessoais, a moda revela os valores e os objetos com os quais o sujeito se relaciona, revestindo-o de competências.

Por Guilherme Gomes Ferreira (MTB 5793)


A Artista Plástica e Escritora Flávia Tronca. Foto: Divulgação
          
Sobre a Artista Plástica e Escritora Flávia Tronca

Flávia Tronca tem graduação em Artes Plásticas pela Universidade de Caxias do Sul, Bacharelado em Moda/ Estilismo pela Universidade do Estado de Santa Catarina e Mestrado em Educação Estética pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Entre diversas publicações os destaques são os livros: EDUCAÇÃO ESTÉTICA E INTERVENÇÃO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, 1993; PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO GRAFISMO INFANTIL, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, 2001; e MODA DESIGN E MODERNIDADE, Tubarão, 2010.

Pesquisas, Orientações, Coordenações e Docência

Linhas em pesquisa desenvolvidas:

• Psicopedagogia: oportunizar caminhos de aprendizagem estética para que os alunos com dificuldades de aprendizagem possam atingir potencialidades qualitativamente e quantitativamente superiores.

• Estética: entender os desdobramentos e contextualizar o significado da imagem estética na arte, na moda e no design.

• Design em Moda: estudar os aspectos formais nas vestimentas, o conjunto de traços que a caracterizam como um objeto estético que tenha a capacidade de identificar o sujeito na materialidade que o constitui e o personifica.

Coordenações, orientações e docência:

• Coordenadora do Mestrado em Psicopedagogia na UNISUL e de Cursos de Especialização na mesma área UNISUL e UNIVILLE.

• Orientadora de dissertações e monografias de final de curso que envolvem questões da estética e das funções psicológicas superiores na UNISUL e UNIVILLE.

• Docência no Mestrado em Educação e Psicopedagogia da UNISUL em diversas disciplinas que envolvem questões da Arte-Educação.

Exposições coletivas

Mostra CENSO, Caxias do Sul, 1983; MOSTRACAXIASAGORA, Prefeitura de Caxias do Sul, 1984; CULTURA ALEMÃ, Prefeitura de Nova Petrópolis, 1984; MOSTRACAXIAS, Caxias do Sul, 1984.

Exposições individuais

Mostra RETROSPECTO EM COR E MOVIMENTO, Banco do Brasil, Caxias do Sul, 1989; ARTE E MODERNIDADE, Cento de Estética de Jurerê Internacional, Florianópolis, 2009-2010; VIAJAR É BOM, ARTE TAMBÉM, Fibratur, Florianópolis, 2010; EM TRAMAS, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

Site Flávia Tronca - www.flaviatronca.com.br

 

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