Matéria-prima básica para a indústria têxtil e de confecções, o algodão tem tirado o sono dos empresários. Com o produto escasso e o preço quase triplicando no último ano, muitas fábricas têm sentido o golpe e estão parando temporariamente sua produção, colocando funcionários em licença remunerada.
Para o diretor-superintendente da
Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit),
Fernando Pimentel, o problema deverá continuar afetando o setor até a chegada da nova safra, prevista para maio.
Nesta entrevista exclusiva ao
Portal EconomiaSC, Pimentel fala também sobre outros entraves para uma maior expansão do quinto maior mercado têxtil e de confecções do mundo. Ouça também a íntegra da entrevista
clicando aqui.
Fernando Pimentel / Divulgação ABIT
Algumas importantes empresas têxteis catarinenses estão com problemas e chegaram a parar de produzir. Pode ser o prenúncio de uma crise para o setor?
O grande tema, que está trazendo perplexidade para os produtores do setor, é o preço do algodão, que está no nível mais alto dos últimos 140 anos. O custo está proibitivo, mais de três vezes superior a um ano atrás, além do problema da escassez.
Isto está trazendo um grande dano para a capacidade operacional das empresas. Ninguém consegue triplicar o seu capital de giro em um período tão curto, especialmente em um mercado que não comporta passar os repasses na mesma proporção do aumento de custo para as empresas.
A situação deve continuar bastante crítica até a chegada da nova safra, em maio. Apesar de este ser o grande problema do momento, não é o único. Ele vem a se sobrepor também a outras questões externas de competitividade.
O aumento não vem sendo repassado totalmente para o consumidor?
Não se consegue repassar na mesma proporção e na mesma velocidade. É só fazer comparações com os índices de inflação. Enquanto o IPCA ficou abaixo de 6% nos últimos doze meses, o algodão subiu entre 250% e 280%. Como ele representa não menos que 40% dos custos de fabricação de um tecido pesado, os aumentos estão chegando à casa dos 100% para as empresas.
Além do algodão, o câmbio desfavorável, a concorrência chinesa e a alta carga tributária também engessam o setor. O que pode ser feito para reverter este quadro?
O Brasil tem, num horizonte de cinco a seis anos, a oportunidade de fazer grandes transformações em sua infraestrutura e no seu ambiente competitivo. Sediaremos grandes eventos e o mundo precisa cada vez mais dos alimentos aqui produzidos.
Isso é o lado bom. Só que isso precisa ser transformado em melhora da qualidade de vida da população. De imediato, o governo precisa trabalhar na agenda da competitividade. São alguns elementos fundamentais.
O primeiro é a desoneração do custo do emprego. No Brasil, gerar emprego custa muito e isso não significa que o trabalhador esteja ganhando bem. Os impostos ali cobrados acabam não retornando em forma de benefícios para a população. Outro ponto que precisa ser trabalhado é a questão da energia elétrica. O custo atual está proibitivo, principalmente para pequeno e médio consumidor, base de nossa cadeia produtiva.
O terceiro ponto é a desoneração em definitivo de impostos das exportações. A quarta questão é referente às máquinas para linhas de produção. Quem compra máquina, não deve pagar imposto sobre ela, mas sim sobre o produto que é gerado a partir daí.
O ano de 2010 foi bom para a economia como um todo, inclusive para o setor têxtil. O que esperar de 2011?
No ano passado, a indústria têxtil e de confecção cresceu entre 5% e 6%. O varejo do setor cresceu cerca de 11% e as importações subiram mais de 40%. Foram gerados mais de 63 mil postos de trabalhos e os investimentos ultrapassaram US$ 2 bilhões. Nosso crescimento foi abaixo do nível do PIB, enquanto que historicamente ficava acima em condições semelhantes.
O crescimento maior do varejo em relação à indústria teve como grande beneficiado os produtos estrangeiros.
Para este ano, levando em consideração os impactos da alta do preço do algodão, a perspectiva de crescimento da indústria caiu para algo em torno de 3%. A geração de empregos deve ficar em 40 mil novos postos de trabalho e os investimentos em pouco menos de US$ 2 bilhões.
Depois da crise internacional de 2008, muitas empresas se voltaram para o mercado interno brasileiro. Esta pode ser uma tendência?
Com a taxa atual de câmbio, o estímulo à exportação não é dos maiores. Apesar disso, houve alta de quase 12% em 2010. Setores importantes, como o de cama, mesa e banho encolheram as duas fatias no mercado externo e começaram a mirar para dentro do Brasil.
Algumas empresas estão chegando ao varejo, num processo maior de verticalização. São diversos os movimentos que têm ocorrido buscando maximizar o valor dos investimentos, que é o objetivo central.
O déficit na balança comercial vem crescendo...
Em 2010, ele ficou em US$ 3,5 bilhões, o que representou a não geração de 135 mil postos de trabalho no País.
Isto pode ser revertido?
Sim, porém não de uma hora para outra. São exigidas medidas fortes para a competitividade interna e também para novas relações comerciais com grandes países produtores, como é o caso da China.
Em Santa Catarina, esse déficit vem aumentando acima da média nacional. Qual a explicação?
O setor de cama, mesa e banho sempre foi uma base exportadora muito grande e teve sua participação reduzida drasticamente. Outro ponto que deve ter influenciado no saldo negativo é o regime especial para importações, o Programa Pró-Emprego.
Por Leonardo Gorges - leonardo@economiasc.com.br