As férias são ótimas pra gente tentar diminuir a pilha de livros que a correria do ano não deixa vencer. Tento evitar a angústia de pensar em tudo o que eu tenho vontade de ler, não consigo e não conseguirei. Por acaso, neste recesso de verão caíram em minhas mãos dois badalados guias lançados recentemente. “
A Parisiense”, da ex-modelo
Inès de La Fressange (
http://www.intrinseca.com.br), e “
É tudo tão simples”, da jornalista
Danuza Leão (
http://www.ediouro.com.br). Não era exatamente o que eu queria ler para diminuir a minha pilha, mas eles são tão perfeitos para as férias!
Depois de encarar os dois assim, um depois do outro – e eles têm muitas coisas em comum – fiquei pensando qual é a serventia de obras desse tipo, que trazem reflexões sobre o dia-a-dia, relacionamentos, viagens, eventos e... moda! Afinal, hoje em dia um livro não pode se propor mais a ser meramente um guia de etiqueta ou um guia de como se vestir bem. Os códigos que envolvem roupas e sapatos, assim como comportamento social, se tornaram tão complexos que a moda acabou assimilando um pouco de tudo que faz parte do nosso atribulado cotidiano. O vestir tem ligação com um monte de coisas que necessariamente precisam ser mencionadas no livro, que acaba ganhando o vago nome de guia de estilo. Nem todo mundo tem o currículo e a experiência de Inès de La Fressange e Danuza Leão para escrever uma obra desse tipo, mas mesmo assim muita gente se mete a besta e diz o óbvio. E daí saem os livros chatos, que nem merecem ser mencionados aqui.
Pra começar é preciso dizer que ao ler “A Parisiense” um certo distanciamento cultural deve ser observado. As francesas, apesar da indiscutível fama de elegantes, têm um jeito muito mais despojado no que se refere ao seu modo de vestir e enfeitar a casa, com um quê “desarrumado” – aos nossos olhos – com o qual nós, brasileiras, nunca vamos nos conformar. Da mesma forma elas – e seus maridos – não compreendem nossa tolerância com um pouco de bunda, peitos, cores e flores a mais. Digo isso com tranquilidade porque tenho uma comadre francesa, linda, dona de enormes olhos azuis, executiva muito bem sucedida em uma multinacional de beleza, elegantérrima e magra. Ela é quase espartana na escolha de cores e acessórios e mesmo desde sempre com um corpo lindo, sempre acha que deve comer menos. Tenho certeza que ela me considera over em muitos aspectos. E meu compadre também.
Mas não há dúvida de que “A Parisiense” é um livro bem maneiro, a começar pela edição. Em vermelho e dourado, meio molenga, fácil de carregar e manusear, colorida, com diagramação propícia pra uma leitura preguiçosa. E Inès é simpática e engraçada. O livro de Danuza tem uma edição mais tradicional, mas também brinca um pouco com ilustrações e a tipologia. A jornalista e ex-modelo capixaba não é tão leve quanto a francesa, mas faz suas brincadeirinhas. A gente consegue dar boas risadas com as tiradas quase rabugentas dela. E pra quem tem mais de 40, feito eu, é irresistível balançar várias vezes a cabeça concordando, com um sorriso nos lábios, com algumas afirmações – antilogos, antigrifes, antibabaquices metidas a chique em geral – da vivida, sábia e chique Danuza.
A vivência das duas, aliás, é fundamental para a escrita dos livros. Não apenas a experiência na moda e a quantidade de viagens que fizeram, além de pessoas bacanas que conheceram. Mas a bagagem de vida mesmo. Inès já passou dos 50 há uns anos e Danuza está perto dos 80 (mas o livro tem um frescor que nos faz esquecer disso). O caso é que quem já adquiriu alguma “milhagem” depois dos 30, já leu muita revista de moda e teve o mínimo de educação e poder de observação na vida, pode chegar a algumas conclusões sem a ajuda de livro nenhum, mesmo sem ter sido tão famosa ou tão jet-setter. Por isso, de um modo geral, penso que a gente não precisa de guia para saber o que e como se vestir, o que dizer, para onde ir. É uma questão de bom senso, que, claro, nem todo mundo tem. E para essas pessoas talvez livros assim sejam úteis. O perigo é alguém “sem noção” ler e achar que tem, digamos, que comprar um jeans branco, um dos coringas fashion na opinião das duas autoras. Eu, por exemplo, descendente direta da genética africana que proporciona “reservas nos quadris para os tempos difíceis”, não posso nem sonhar com um desses. Nem que eu morra de vontade, ao ver a
Nine, filha da Inès, posando lindamente com suas perninhas finas de 40 e poucos quilos enfiadas na calça branca, assim como a Danuza – barriga 100% flat, como assim? – com quase 80 anos em jeans brancos na capa do livro.
Preciso dizer que uma das coisas que me agradaram na leitura é o fato de que as duas, sabidas que são, entendem que a capital do planeta é Paris – isso pra quem já sacou que o umbigo do mundo não é a
Macy’s ou algo que o valha. Folheando “A Parisiense”, quem nunca visitou a capital da França vai levantar e fuçar na Internet na hora pra buscar a passagem mais em conta, e quem já conhece vai se deliciar com reminiscências e ficar doido pra voltar. Mas o mais bacana mesmo é a mensagem positiva em ambos, do tipo “desacelere, ponha menos peso nas coisas, não dê tanta importância” que permeia as obras. Eu, você, todo mundo, está careca de saber disso, mas é sempre bom ler e reler pra tentar assimilar e mudar de vida. De férias, então, fica ainda mais fácil encher-se de determinação para dizer “este ano vou ser diferente”. Resta a missão de levar isso em frente ao longo dos próximos meses. Com ou sem jeans branco.
* Apesar de minhas preferências predominantemente coloridas, sei apreciar a poesia e a pureza do branco. E
Rei Kawakubo, da
Comme des Garçons sabe como ninguém. Veja que lindeza este pequeno vídeo, inspirado na última coleção dela:
http://www.anothermag.com.
* Dê um click aqui pra ver que a Danuza Leão estava certa, tudo era mesmo mais bonito antigamente. Mas definitivamente mais complicado! Aproveite e faça uma linda viagem no setor de história do indumentário no acervo digital da biblioteca da
Universidade de Washington:
http://content.lib.washington.edu.
Por Nilma Raquel
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau.
Artigos assinados são de responsabilidade dos autores, não expressando necessariamente a opinião do Portal mídiamoda.