Apesar de terem se passado vários dias dos eventos catastróficos no Japão, escrevo ainda sob o impacto do que todo mundo viu. Impossível a gente não ficar chocada. Por ter começado no jornalismo diário e numa cidade pequena, cobrindo de tudo um pouco e vendo de perto “a vida como ela é”, inicialmente tive dificuldade de me entregar ao efêmero, ao abstrato e ao supérfluo do mundo da moda. E quando ocorrem episódios como este do Japão é ainda mais louco pensar que enquanto há milhares de pessoas vivendo a versão 2011 da Rosa de Hiroshima outras centenas estão se estapeando pra comprar um blazer de R$ 499 da coleção da
Stella McCartney para a
C&A.
Com mais essa fase da “turnê do fim do mundo” (como bem diz o pessoal da revista Piauí) acontecendo, quem tem um pingo de consciência faz a velha pergunta: “onde isso vai parar?”. Os astrólogos têm dito que, sim, a Terra está prestes a ver seu fim. Mas não o fim físico, com 3 bilhões de almas indo pro beleléu, mas o fim do mundo “como conhecemos até agora”. Ou seja, as mudanças estão sendo e serão tão radicais que seremos obrigados a rever nossa postura. Exemplo: alguém aí imaginou que seria possível a maior parte dos países ricos reavaliar seriamente suas políticas de energia nuclear antes do episódio de Fukushima?
Isso tudo é pra gente falar também de moda. Porque a impressão que tenho é que também no setor estamos vivendo gradativamente uma mudança de pontos de vista. Basta compararmos com os anos 1990 e 2000 em que moda era necessariamente sinônimo de consumo desenfreado e a maioria dos ícones de estilo estava ligada obrigatoriamente ao alto luxo. Óbvio que hoje ainda existem lunáticos que acham que dinheiro compra estilo e prestígio, mas o mundo da moda “como conhecemos até agora” também está sendo implodido. Basta vermos o crescimento do número de sites dedicados à moda ambientalmente engajada, a adesão - mesmo de grandes
maisons - ao uso de materiais recicláveis e o sucesso de iniciativas como da catarinense Fujiro (
www.fujiro.com.br) que, de forma brilhante, mostra que moda ecológica não precisa ter cara de hippie fora de época.
Sem falar no triste desaparecimento de
Alexander McQueen, há um ano, o lamentável episódio envolvendo recentemente o estilista
John Galliano é mais um exemplo das “catástrofes” que têm abatido o universo fashion, derrubando mitos e estraçalhando verdades estabelecidas. Porque, à parte a genialidade do ex-criador da
Dior e a discussão sobre o conteúdo de seus impropérios antissemitas, quem convive em moda está careca de saber o quanto de arrogância permeia esse mundinho, cheio de gente que acha que “é tudo” dizer o que quer, na hora que quer, a quem quer que seja. Foi preciso chegarmos a um escândalo envolvendo um assunto tão delicado para que as pessoas refletissem sobre os limites do desrespeito ao outro.
Por isso, mesmo tendo a certeza de que ainda temos que comer muito capim para evoluirmos como seres humanos, espero que os astrólogos estejam certos e que todas as sacudidas – literal e simbolicamente falando – pelas quais o mundo está passando, sirvam pra aprendermos alguma coisa e assimilarmos as mudanças necessárias. Seja no trato com o coleguinha ao lado, na nossa concepção mais ampla de vida ou simplesmente na escolha do próximo casaco que vai rechear nosso closet.
Por Nilma Raquel
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Acaba de se mudar para Londrina, PR, onde prepara o lançamento do seu blog: http://bonitasoueu.blogspot.com
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