Historicamente, moda e indústria do entretenimento se misturam. Em seu livro “História Social da Moda”,
Daniela Calanca nos conta que
Samuel Goldwyn Junior, produtor de cinema na fervilhante Hollywood dos anos 40, ofereceu um milhão de dólares por ano para que
Coco Chanel vestisse suas divas nas telas e fora delas. As mulheres iam ao cinema ver vestidos lindos, e saíam dali loucas para comprar novos vestidos lindos! “Business chama business, é um circuito que se auto-alimenta”, diz Calanca.
Aí todo mundo falou da invasão de “celebridades” (a palavra mais infeliz dos últimos tempos...) na recente edição da
São Paulo Fashion Week. E todo mundo desceu o pau. Neste caso, meus caros, mesmo entendendo que “business chama business”, eu concordo com a maioria. A histeria coletiva provocada pela presença desse monte de gente que tem fama, mas não necessariamente conteúdo, causa um desvio de finalidade na principal semana de moda do país. E falando ainda de modo “corporativista”, dificulta pra caramba o trabalho de quem está lá para simplesmente... trabalhar!
Nas ocasiões em que cobri o
SPFW, ainda desde a época em que era
Morumbi Fashion (nossa, isso faz tempo!) senti na carne como era chatésimo lidar com as barreiras impostas a quem precisava apenas fazer sua reportagem ou registrar uma imagem em paz, mandar seu material pra redação e ir embora para casa. A gente – ou melhor quem não é, como eu não sou, a
Glorinha Kalil nem a editora de moda da
Vogue pra sentar na fila A – tem que encarar um povo de cara feia do primeiro ao último desfile e se sente como se estivesse recebendo um favor misericordioso da organização.
É óbvio que as semanas de moda precisam da divulgação feita pela imprensa e os veículos, por sua vez, adoram encher as páginas com o que acontece nas passarelas e bastidores. Mas a SPFW precisa da
Cristina Aguilera para que seja notícia? Em que pese a pressão do patrocinador que a trouxe, claro que não. Porque após 15 anos o evento acontece por si só e as celebrities B presentes acabam nefastamente agregando público e publicidade indesejados ou no mínimo desnecessários.
E então eu trago essa discussão pro âmbito regional. A contratação de gente famosa, ao contrário de um grande e estabelecido evento nacional, é sim importante num universo menor. Nas semanas de estilo e fashion shows realizados em mercados de moda como os do Sul, que, apesar de pujantes, ainda precisam de publicidade e maciça divulgação, nomes da TV e da música devem estar presentes.
Por isso, ao contrário dos grandes eventos fashion de SP e RJ (além do
Minas Trend, que tem crescido e surpreendido), defendo que tenhamos em SC, PR e RS as estrelas da vez na passarela. É investimento importante, que dá notícia, agrega público e pode, sim, chamar a atenção para o que está sendo feito fora dos holofotes permanentemente acesos sobre a região Sudeste. Assim, que tal cada um se comportar de acordo com sua realidade? Regionalmente, recorremos às celebridades para ganhar publicidade e a SPFW pode parar de pensar pequeno.
Por Nilma Raquel
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Acaba de se mudar para Londrina, PR, onde prepara o lançamento do seu blog: http://bonitasoueu.blogspot.com
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