Esclarecendo: quando uso logofobia neste título, não estou falando do mal que acomete o personagem principal do premiado filme “O Discurso do Rei”. Não receio minimamente falar em público - pra mal dos meus pecados - e não é à toa que vivo dando bom dia a cavalo. A questão aqui é que não tenho uma bolsa
Louis Vuitton. Nem
Gucci. Nem
Fendi. Além de não ter tanta grana assim, não estou a fim mesmo de pagar o que elas teoricamente valem. Hm, parece despeito puro, eu sei.
Sua vizinha, sua colega de sala, sua companheira de malhação certamente ostentam uma bolsa cheia de monogramas. E às vezes você se pergunta se deve entrar na onda. Afinal, como resistir e nadar contra a corrente? Mas as bolsas que eu não tenho e não quero ter, e das quais estou falando são justamente essas em que o LV entrelaçado ou os G e Fs espelhados aparecem pra todo lado. Tipo a “neverfull”, da Louis Vuitton, que a gente vê por todo lado porque custam 600 dólares nas viagens que quase todo mundo faz pros Estados Unidos.
Vontade de ter uma bolsa grifada eu tenho sim, mas daquelas em que o acabamento, o material e o design despertam o meu desejo e fazem a diferença de verdade. Só que estas estão mais além do meu alcance financeiro e da minha ousadia em cometer uma sandice. Por exemplo: a “bamboo” da Gucci (
http://www.gucci.com), feita de couro de cobra, custa 5600 dólares. Quem você conhece que pode (ou tem coragem) de pagar isso? Provavelmente não a sua vizinha, nem sua colega de sala ou sua companheira de malhação. E é por isso que elas se contentam em ter uma bolsa com cara de vovó - ou você vai me dizer que um tecido ou couro sintético cheio de logos não traz consigo um perfume velhusco?
“Velhusca não, clássica!”, alguém pode rebater. Mas não consigo achar que “orna” uma menina de seus 20 e poucos anos com um acessório marrom desmaiado cheio de logos caretas. E me dá mais medo ainda ver gente que se acha muito fashion com um foulard todo monogramado no pescoço. Obviamente o LV é um panteão do design de moda, que se renova admiravelmente a todo instante. Veja, por exemplo, o resgate de um tradicional serviço da grife, o
Mon Monogram, a personalização de bolsas e bagagem, para diferenciar o que está ficando com cara de “todomundotem”:
http://www.louisvuitton.com.
Estas marcas representam história, luxo, investimento, valor, e eu não sou ninguém pra dizer o contrário. Mas, sinceramente alguém lembra disso e leva em conta ao raspar o cofrinho pra comprar uma bolsa? A atitude não é nada mais que a tentativa de apresentar um ingresso no mundo pseudosofisticado das portadoras de objetos de grife. Nem vou mencionar aqui o poder do marketing do luxo, a criação do desejo de consumo, a ascensão financeira da classe média pouco letrada ou o potencial incrível das desvalorizadas grifes nacionais. O que eu quero é aproveitar o espaço para defender a ideia de que dinheiro não cai do céu, e à parte a defesa do gosto pessoal, as mulheres poderiam ser um pouco mais inteligentes em suas escolhas.
Nunca fui muito fã da
Carine Roitfeld, ex-editora da
Vogue Paris. Mas numa entrevista à jornalista
Érika Palomino ela deu uma declaração na qual as logomaníacas deveriam prestar muita, muita atenção: “O estilo está mais na forma como você mistura as roupas e como você se move - como abre sua bolsa, como cruza as pernas, apenas pequenas coisas que fazem a diferença. Com as mulheres francesas você primeiro vê a mulher e depois a roupa. Imagine países como a Rússia ou a China, mesmo na Europa Oriental. Eles não têm cultura de roupas então querem mostrar que podem se dar ao luxo de comprar acessórios
Dolce&Gabbana. Eles querem mostrar a etiqueta. Na França, o melhor é não saber que estamos usando marcas. É muito esnobe”. Bem, não é à toa que o mundo da moda nos compara não com a classe das francesas, mas com a fúria emergente e consumista da Rússia e da China.
PS: Felizmente a
London Fashion Week coloriu o inverno do Hemisfério Norte! Dê uma olhada no site da
Revista Catarina (que, aliás, está fazendo um lindo trabalho) e confira:
http://www.revistacatarina.com.br/2011.
Por Nilma Raquel
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Acaba de se mudar para Londrina, PR, onde prepara o lançamento do seu blog: http://bonitasoueu.blogspot.com
Artigos assinados são de responsabilidade dos autores, não expressando necessariamente a opinião do Portal mídiamoda.