Nestas férias redescobri uma caixa de guardados na casa dos meus pais (sim, eu serei uma velhinha mergulhada em fotos, livros com pétalas secas dentro e recortes de revistas e jornais...). E nesta “viagem ao passado” descobri um suplemento da
Folha de S. Paulo de 11 de julho de 1994, ou seja, de 17 anos atrás. O suplemento tinha o curioso título “
2000 dias para o ano 2000” e fazia um exercício de futurologia sobre como estaria a vida em vários segmentos dali a seis anos, quando estivéssemos prestes a iniciar o terceiro milênio. (E eu nem precisava ter guardado o recorte! A louvável atitude da Folha de disponibilizar todo o seu acervo online nos possibilita ler o suplemento (
http://acervo.folha.com.br)
Na área da moda, as jornalistas
Erika Palomino e
Eva Joory apontaram a tecnologia e a individualização como palavras-chave para a moda nos anos 2000. Elas teceram previsões para o avanço da indústria têxtil e desenharam uma moda muito mais “sisuda” do que felizmente se concretizou. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o parágrafo que conclui o texto: “A tendência é que os estilistas passem a respeitar mais os indivíduos, com uma intensificação na produção de roupas para grupos específicos. Os mais gordos e os baixinhos vão ter sua vez: não dá para imaginar que no século 21 só vão existir top models”.
Bem, como a gente sabe no século 21 todo mundo QUER ser top model, mas a maciça maioria está bem longe disso. E mesmo que tenhamos ingressado no século 21 há uma década, ainda estamos engatinhando no que diz respeito à moda para quem não está no padrão. Ainda assim pode-se dizer que, mesmo lentamente, a indústria está dando mais atenção ao “grupo específico” dos gordos. Falo sem meias palavras porque cresci em uma família gorda, com mãe e tias de ambos os lados parecendo saídas de um filme do
Fellini, só que ao invés do macarrão, eram torresmo, biscoito de polvilho e frango com quiabo a animar a mesa, já que veio todo mundo das Minas Gerais.
Não cabe aqui discutir o que sejam ou não hábitos saudáveis, ou se é legal ser gordo ou ser magro. O que quero dizer é que, mesmo mantendo-me a duras penas longe das lojas “plus size” entendo perfeitamente a penúria de quem não encontrava roupa para comprar, ou se encontrava, era somente das cores, modelagens e cortes mais horrendos possíveis, como uma punição, como se quem come demais não merecesse alimento também para o espírito – afinal moda não é isso? Apesar de nem todo mundo que veste mais que 44 conseguir sentir ainda, uma evolução para peças mais condizentes com o desejo de ser elegante pode ser vista até mesmo nas publicações de ponta do universo fashion.
A
Vogue Itália fez recentemente um lindíssimo ensaio com mulheres voluptuosas – não gordas exatamente. As revistas americanas, refletindo a realidade de um país de gordos, frequentemente coloca opções e matérias destinadas a agradar as mais cheinhas. A
Vogue Austrália até tentou, mas as plus sizes estampadas nas páginas pareciam uma verdadeira piada para quem se olha no espelho e sabe que está fora do peso. Enfim, valeu a intenção. Outro sinal bacana é a abertura de canais específicos, como no blog Chic (
http://chic.ig.com.br/plus-size), de Gloria Kalil. Numa palestra de Gloria perguntei, e ela disse que decidira abrir o canal tal o volume de perguntas sobre o assunto que recebia.
O mercado como um todo está se mexendo, e o
Fashion Week Plus Size está em sua quarta edição (
http://www.fwps.com.br). E a indústria catarinense particularmente também já deu seus pulos:
Cativa,
Lunender e
Malwee entraram seriamente no mercado com coleções interessantes, basta acessar o site das empresas pra ver. Pergunto: veremos estilistas de ponta desenhando coleções especiais ou estendendo a grade de seus lançamentos para além do 42? Sinceramente acho pouquíssimo provável. Mas penso que devagar, sobretudo se a renda média e o poder aquisitivo do brasileiro continuarem crescendo, mais “gente normal” vai deixar de ter a alcunha de “grupo específico” e ditar as regras do mercado, e quem vai ter que se adaptar serão as empresas, e não as gordinhas.
*Para quem nasceu magro e não tem a menor ideia do que é o preconceito ou a dificuldade para encontrar uma roupa, a “
Gisele Bündchen” do mundo fashion plus size,
Flúvia Lacerda, dá uma interessante entrevista a
Veja, vale conferir:
http://veja.abril.com.br
Por Nilma Raquel
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Atua como jornalista freelancer e é aluna especial do Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina, PR.
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