Notícia cadastrada em: 05/08/2011 - 18:27:54
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Nilma Raquel: alimento para o espírito

Nestas férias redescobri uma caixa de guardados na casa dos meus pais (sim, eu serei uma velhinha mergulhada em fotos, livros com pétalas secas dentro e recortes de revistas e jornais...). E nesta “viagem ao passado” descobri um suplemento da Folha de S. Paulo de 11 de julho de 1994, ou seja, de 17 anos atrás. O suplemento tinha o curioso título “2000 dias para o ano 2000” e fazia um exercício de futurologia sobre como estaria a vida em vários segmentos dali a seis anos, quando estivéssemos prestes a iniciar o terceiro milênio. (E eu nem precisava ter guardado o recorte! A louvável atitude da Folha de disponibilizar todo o seu acervo online nos possibilita ler o suplemento (http://acervo.folha.com.br)

Na área da moda, as jornalistas Erika Palomino e Eva Joory apontaram a tecnologia e a individualização como palavras-chave para a moda nos anos 2000. Elas teceram previsões para o avanço da indústria têxtil e desenharam uma moda muito mais “sisuda” do que felizmente se concretizou. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o parágrafo que conclui o texto: “A tendência é que os estilistas passem a respeitar mais os indivíduos, com uma intensificação na produção de roupas para grupos específicos. Os mais gordos e os baixinhos vão ter sua vez: não dá para imaginar que no século 21 só vão existir top models”.

Bem, como a gente sabe no século 21 todo mundo QUER ser top model, mas a maciça maioria está bem longe disso. E mesmo que tenhamos ingressado no século 21 há uma década, ainda estamos engatinhando no que diz respeito à moda para quem não está no padrão. Ainda assim pode-se dizer que, mesmo lentamente, a indústria está dando mais atenção ao “grupo específico” dos gordos. Falo sem meias palavras porque cresci em uma família gorda, com mãe e tias de ambos os lados parecendo saídas de um filme do Fellini, só que ao invés do macarrão, eram torresmo, biscoito de polvilho e frango com quiabo a animar a mesa, já que veio todo mundo das Minas Gerais.

Não cabe aqui discutir o que sejam ou não hábitos saudáveis, ou se é legal ser gordo ou ser magro. O que quero dizer é que, mesmo mantendo-me a duras penas longe das lojas “plus size” entendo perfeitamente a penúria de quem não encontrava roupa para comprar, ou se encontrava, era somente das cores, modelagens e cortes mais horrendos possíveis, como uma punição, como se quem come demais não merecesse alimento também para o espírito – afinal moda não é isso? Apesar de nem todo mundo que veste mais que 44 conseguir sentir ainda, uma evolução para peças mais condizentes com o desejo de ser elegante pode ser vista até mesmo nas publicações de ponta do universo fashion.

A Vogue Itália fez recentemente um lindíssimo ensaio com mulheres voluptuosas – não gordas exatamente. As revistas americanas, refletindo a realidade de um país de gordos, frequentemente coloca opções e matérias destinadas a agradar as mais cheinhas. A Vogue Austrália até tentou, mas as plus sizes estampadas nas páginas pareciam uma verdadeira piada para quem se olha no espelho e sabe que está fora do peso. Enfim, valeu a intenção. Outro sinal bacana é a abertura de canais específicos, como no blog Chic (http://chic.ig.com.br/plus-size), de Gloria Kalil. Numa palestra de Gloria perguntei, e ela disse que decidira abrir o canal tal o volume de perguntas sobre o assunto que recebia.

O mercado como um todo está se mexendo, e o Fashion Week Plus Size está em sua quarta edição (http://www.fwps.com.br). E a indústria catarinense particularmente também já deu seus pulos: Cativa, Lunender e Malwee entraram seriamente no mercado com coleções interessantes, basta acessar o site das empresas pra ver. Pergunto: veremos estilistas de ponta desenhando coleções especiais ou estendendo a grade de seus lançamentos para além do 42? Sinceramente acho pouquíssimo provável. Mas penso que devagar, sobretudo se a renda média e o poder aquisitivo do brasileiro continuarem crescendo, mais “gente normal” vai deixar de ter a alcunha de “grupo específico” e ditar as regras do mercado, e quem vai ter que se adaptar serão as empresas, e não as gordinhas.

*Para quem nasceu magro e não tem a menor ideia do que é o preconceito ou a dificuldade para encontrar uma roupa, a “Gisele Bündchen” do mundo fashion plus size, Flúvia Lacerda, dá uma interessante entrevista a Veja, vale conferir: http://veja.abril.com.br

Por Nilma Raquel


        
Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Atua como jornalista freelancer e é aluna especial do Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina, PR.

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comentários

5 pessoas comentaram a notícia Nilma Raquel: alimento para o espírito
Nilma Raquel Postado em: 12/08/2011 - 18:48:15
Pois é, Raquel, alguma coisa precisa mudar, a gente sabe! Obrigada pela leitura e pelo comentário, um beijo!!
Elisia Raquel Louback Tavares Postado em: 09/08/2011 - 14:22:00
Amei sua materia ,posso dizer com certeza o que é viver de canto a canto procurando algo que realmente não de faça sentir alguns anos mais velha ja que o estilo é bem longe do que se espera.
Elisia Raquel Louback Tavares Postado em: 09/08/2011 - 14:21:57
Amei sua materia ,posso dizer com certeza o que é viver de canto a canto procurando algo que realmente não de faça sentir alguns anos mais velha ja que o estilo é bem longe do que se espera.
Nilma Raquel Postado em: 09/08/2011 - 10:30:48
É, Mirian, vc tem toda a razão. A minha família, por exemplo, é de gordinhas com cintura fina, quadril largo e braços delicados. Mas sempre que alguém procura uma roupa GG, as mangas são enooormes cabem três dentro! Se para as pessoas com manequins 38 a 44 as coisas já são cheias de melindres, imagina para quem tem "detalhes" sobrando em diferentes lugares! Concordo também que ainda falta um pouco mais de carinho em algumas coleções. Vamos torcer para que a situação só melhore... Beijos com saudade!
Mirian Roza Postado em: 07/08/2011 - 20:54:30
Oi Nilma. Já faz tempo que a indústria da moda ensaia coleções bacanas para gordinhos e gordinhas. Muito já se avançou nesse sentido, mas ainda há bem mais para a ser explorado. Eu ainda acho que nesse segmento ainda falta refinamento nas peças. E não podemos esquecer que não basta aumentar o tamanho da modelagem, é preciso criar detalhes específicos que valorizem a silhueta. Adorei o teu texto. Bjs.
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