O Brasil andando com seus próprios pés.
Uma vez me perguntaram como era a moda em outros países e de que modo as pessoas se vestiam. Comecei a pensar sobre isso e respondi que, na minha opinião, excetuando alguns costumes locais, geográficos e climáticos, tudo era muito parecido.
A moda está tão disseminada e democratizada que posso usar até o velho jargão, “globalizada”. O que é moda aqui, é moda lá e acolá. Ainda mais com o uso da Internet na pesquisa.
O que existe são macrotendências atuando no cotidiano de todos (na moda, nas pessoas, nos gostos...), e estas criaram pontes entre diversas culturas e locais, seja aqui ou pra lá de Marrakech.
Além das macros, outro fator fundamental que tem feito estas conexões, aproximando lugares e culturas, são homens que resolveram fazer diferença e desbravar a moda através da inovação e criatividade saindo, assim, do lugar comum.
No Brasil, vários “Bandeirantes” (visionários) têm se sobressaído e estão transformando gostos díspares em similares. Conectam seus sonhos aos desejos do consumidor, alcançando assim, lugares distantes. Cansaram das commodities e agregaram valor ao produto Brasil.
Não conseguiria citar todos, senão, alguns. Somente um olhadela na indústria calçadista, já dá uma pequena dimensão desse crescimento. Nacionalmente, a
Havaianas (da Alpargatas), que fez case e é usada no mundo todo. Outro ícone de uma geração, a
Grendene que na década de 80 com sua
Melissa Full Plastic fez história, mudando o rumo da indústria da moda. Hoje, também temos outro grande visionário que tem despontado:
Alexandre Birman, que com a
Schutz vem conquistando mercados distintos. Traz luxo e estética aos pés que outrora tinha-se impressão de que somente os italianos faziam isso bem. Já na indústria catarinense, toda uma cidade envolvida nisso: São João Batista.
Esses homens, empresários, artistas, criaram pontes em diversos cenários, aliados à excelência e ao inusitado. Logo, devido a essa exportação/importação de talentos, podemos dizer que a moda está quase uniforme, apenas diferenciada pelas inúmeras tribos que surgem todos os dias. O que se vê em nossa região, poderá ser visto em países com usos e costumes completamente diferentes dos nossos. Essas pequenas diferenças podem ocorrer, inclusive por
timing (lembro-me de uma empresa que lançou um modelo de bota com antecedência ao que o mercado estava pedindo. Foi um fracasso de vendas e obteve prejuízo. Seis meses depois, esse mesmo modelo estourou nas passarelas, mas aí já era tarde: haviam queimado seu trunfo).
Falando em usos, costumes e adaptação à moda, recentemente, andando pela Rue Saint-Honoré, pude observar um jovem extremamente elegante usando um par de sapatos em camurça verde e uma camisa lilás. Fiquei indagando se o mesmo poderia ser usado aqui no Brasil. Creio que a resposta seria um sonoro “não”. Talvez em grandes cidades como Rio ou São Paulo e outras capitais, mas não no grande Brasilzão, já que ainda estamos nos adaptando à cultura universal e nossa colonização ainda não aceita determinados “adornos” masculinos.
Outro exemplo, seria o Egito e em alguns locais do oriente, que devido calor, areia e condições diferenciadas, apresentam muitas sandálias, daquelas que aqui chamamos “franciscanas” (isso no campo masculino). Do lado feminino, o conforto das sapatilhas, mas sem nunca abrir mão do salto, expediente usado como forma de fetiche e elegância.
Assim como temos brasileiros que lançam modas e tendências, há outros que estão se destacando no cenário mundial. Dentre tantos, cito o criativo e controverso israelita
Kobi Levi*.
Falando em Egito e Israel, não posso deixar de dizer que
Deus foi o primeiro estilista. A frase não é minha, mas concordo com isso e a uso constantemente por onde passo. Em duas ocasiões, a Bíblia descreve Deus criando roupas e acessórios.
Na primeira, após a queda do homem, este descobriu que estava nu e se escondeu de Deus. Para resolver este problema, “fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gn 3:21). A segunda vez que a Bíblia cita Deus como criador de moda está em Êxodo 28, capítulo 3 em diante e também no capítulo 39. Nesses dois episódios, a roupa sacerdotal é detalhadamente descrita, bem como o modo de fazê-la. Mais uma vez fez-se a ponte entre o Sacro e o Profano (Deus e o homem caído).
Macrotendências
Quando analisamos a moda, ditada pelas macrotendências, vemos sempre um resgate do passado em nova roupagem. Tudo é cíclico, tudo é novo e nada é novo. Eis aqui um resumo de algumas que estão no atual cenário:
Movimento Viridiano:
Cunhado em 1998 pelo escritor americano de ficção científica,
Bruce Sterling faz uma ácida crítica à sociedade materialista, adotando atitudes sustentáveis ao design de produtos e áreas afins. Ele também definiu o gênero cyberpunk.
O grande preceito é que devemos priorizar os objetos que usamos durante mais tempo, como por exemplo, a cadeira do escritório, a cama e os sapatos, que chegamos a ficar calçados por oito horas diárias ou mais, e enquanto isso, valorizamos muito mais um carro que dirigimos apenas uma hora por dia.
Dividindo tudo que possuímos, o
Viridianismo se pronuncia em quatro categorias: nas coisas belas, nas emocionalmente importantes, nas ferramentas e aparelhos que realizam alguma função útil de forma eficiente. E a quarta parte de nossas coisas, é o que poderá ser eliminado sem perda de qualidade de vida.
Esse movimento está cada vez mais norteando a vida de uma parcela dos seres humanos. Ou melhor, vem mostrar como estamos caminhando e construindo essa passarela, abolindo tudo aquilo que é supérfluo. O consumo prático e moderado é o mote dessa macro.
Shopeusses:
Em contrapartida ao movimento anterior, esse vem ditar a gastança. Mostra uma necessidade do ser humano em comprar aquilo que é inútil, fútil ou simplesmente belo, pelo simples prazer de ter. Sendo otimistas, porque não afirmar, que funciona como um delineador de nossa individualidade, dizendo ‘não’ à massificação?
Redes e Mídias Sociais (comunicação e engajamento):
Orkut, Facebook, Twitter, MySpace, Tumblr: escolha a sua. Nunca se houve tão grande profusão de blogs. Essa comunicação pode ser sobre consumo, marcas, cotidiano, externando opiniões e gostos. Todo esse engajamento digital tem forçado as empresas a ouvir e participar dessas conversas, para trazer para dentro do negócio o que está acontecendo lá fora.
E quando uma opinião é externada por um formador de opiniões, está feita a alavancagem do produto ou da pessoa, seja positiva ou negativamente. Basta olhar para as novas gírias, grupos musicais e modismos que aparecem todos os dias. A geração Y é ávida por esse instrumento, enquanto que a X ainda está aprendendo (e muitas vezes relutante).
Singles, Greens e Leisure:
Batida, rebatida, exacerbada, exagerada e muitas vezes combalida, a consciência ecológica é fundamental. Tudo está deteriorando muito rápido, seja a natureza, os valores, as hierarquias, a convivência, as verdades, as ideias. Quase tudo está (ou não) sendo questionados. Cansou-se do marketing verde, que era apenas uma fachada para vender mais. Hoje, o consumidor está bem mais atento e cobrando isso das empresas e de seus pares. Também entra o personagem que mora sozinho, vertente que cresce dia a dia. Esse busca produtos e serviços que vão ao encontro de suas necessidades e
lifestyle. Demorou muito até que as empresas aprendessem a diminuir as porções, focar nesse mercado e agregar valor ao seu produto. Ainda inclui-se à isso tudo, o lazer, cada vez mais premente.
Hoje a moda permeia todos os setores da economia. É um dos setores que mais move dinheiro no mundo. Cumpre seu papel social como embaixadora, cruzando os cinco continentes. Ela une povos, constrói as pontes, abraçando as mais diversas culturas.
*Kobi Levi
Formado pela
Academia Bezalel de Arte e Design em Jerusalém, especializou-se no design e desenvolvimento de calçados diferenciados. Todos feitos a mão em seu estúdio, lembram situações do cotidiano de todos nós.
A obra conceitual do designer pode apresentar modelos como cascas de banana, chicletes, gatos, bonecas infláveis ou estilingues. Utilizando materiais como malhas, couro, plástico e camurça (com estampas jeans e xadrez, e coloridos), têm provocado tanto suspiros quanto choques.
Algumas criações estão em seu blog:
http://kobilevidesign.blogspot.com
Por Giancarlo Zanotto
É formado em Administração, Computação e Moda, Pós-graduado em Gestão de Negócios, Neurolinguística, Moda e Comunicação. Giancarlo Zanotto ainda é Consultor de Marketing e atua na área de Desenvolvimento de Novos Produtos e Coleções. Também é diretor da Shout, empresa focada em design e inovação em produtos, serviços e embalagens: www.shout.tc
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