O vintage me fascina. Quando criança, adorava as roupas antigas de minha mãe. Gostava tanto que, por volta dos meus 17 anos, cursando moda e trabalhando em uma tradicional loja de tecidos, no Brasil, fazia das roupas de minha avó um motivo de estudo de modelagem, tecidos, cortes e formas e as transformava em peças de meu guarda-roupa pessoal. Contudo, desde que vim morar na Europa, repleta de brechós, um melhor que o outro, o vintage se tornou mais concreto em minha vida. Peças costuradas e criadas pelos próprios estilistas, como
Dior e
Chanel, técnicas diferentes de costura, tentativas ousadas em anos escassos e exclusividade passaram a me levar a essas lojas que pareciam ser de outro mundo.
Observando as pessoas com suas bolsas
Luis Vitton dos anos 60, calças de vinil e luvas de renda dos anos 20, misturadas com peças atuais, percebi que esse fascínio pelo vintage não toca somente a mim: cada vez mais pessoas nas ruas vestem o que já “passou”! Imaginei, então, que, se não houvesse tanta comunicação nos dias de hoje ou se acontecesse algo no mundo que acabasse com todos os nossos arquivos e informações, anos depois, se fôssemos pesquisados por algum tipo de extraterrestre, com certeza, pelas nossas roupas, eles não saberiam em que ano vivemos ou, pelo menos, haveria alguma confusão nas pesquisas.
Isso me fez pensar no que procuramos quando vestimos um vintage. A sensação de não saber de quem era essa roupa ou qual sua história? O valor de ter algo exclusivo? O preço (que, muitas vezes, é maior que de uma peça nova)? Sim, creio que procuramos tudo isso e muito mais coisas que não consigo descrever.
Mas... e por que nosso tempo, nossa “moda” faz com que isso seja de fato “moda”? Pensei no dia em que senti falta de algo que não sabia o que era. De um tempo que não sabia qual era. De um sentimento que nunca tinha vivido, mas queria, desejava como se estivesse com muita sede. Meu “nono” costuma dizer que, no “nosso tempo”, nos dias de hoje, a vida é mais fácil, pelos meios de comunicação e pela facilidade que isso nos proporciona. Eu concordo com ele, mas concordo, também, com a música de Caetano que diz que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”, ou seja, a dor e a delícia de viver o que vive. “Temos” tudo, porém, muita vezes, “somos” muito menos. Sentimos falta das coisas simples, do tempo gasto com pessoas que amamos, de comida caseira, de namoros lentos e tranquilos... Acredito, sim, que “isso” existe, que “isso” está aqui, em algum lugar dentro de nós, mas é ofuscado pela correria e falta de tempo. Por isso, acredito que, quando vestimos algo vintage, esse sentimento volta e temos a sensação de ter um pouco daquilo que nos falta e não conseguimos encontrar no nosso meio.
É fabuloso pensar que, se usamos uma roupa em nosso favor, conseguimos informar o que pensamos a pessoas que nem nos conhecem. Causar alguma impressão também me deixa feliz por ter escolhido a moda e as pessoas como profissão. Por aí enxergo algum propósito e não somente uns pedaços de pano que nos cobrem. Assim, como num passe de mágica, uma peça nos faz sentir bem e nos leva ao lugar onde desejamos estar. E isso também é moda.
Por Gabriela Lenzi

Gabriela Lenzi descobriu sua paixão pela arte e pela moda ainda criança. Aos 17 anos ingressou na universidade e aos 21 graduou-se em moda. No mesmo ano mudou-se para Florença (Itália) onde cursou o mestrado em arte na moda na Accademia Italiana di Moda Arte e Design. Muito foi o conhecimento adquirido em sua vivência no exterior: viagens de pesquisa de moda e comportamento, parcerias com empresas renomadas na Itália e no mundo e estágio em um laboratório design.
Gabriela Lenzi é designer de moda, chapeleira e proprietária da marca que leva sua assinatura. A marca é dividida em 4 segmentações: Coleção Autoral, Noiva & Festa, Coleções Personalizadas e Chapelaria. O vício por viajar, conhecer e analisar comportamentos continua sendo sua inspiração. Quer conhecer mais sobre seu trabalho? www.gabrielalenzi.wordpress.com
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