Na última coluna falamos sobre os fios, fibras e malhas realizados à partir de fibras ecológicas, destacando fornecedores e a iniciativa do label
e-fabrics, outorgado pelo
Instituto E, projeto incubado pela grife de roupas carioca
Osklen. Entendendo a complexidade e importância desse assunto, e a novidade que é para os designers trabalhar com as peculiaridades dos tecidos ecológicos, nas próximas matérias irei abordar práticas artesanais e orgânicas no processo construtivo de tecidos.
Seda artesanal, tropical, ecológica.
Dentro desse panorama encontrei em Maringá - PR a empresa
O Casulo Feliz. Criada há 21 anos pelo Zootecnista
Gustavo Serpa Rocha, desenvolve uma seda artesanal, tropical e ecológica sendo instrumento de desenvolvimento social e econômico na comunidade onde está inserida.
Já a própria natureza da seda, faz dela uma matéria-prima intrigante. A lagarta tece o casulo, em volta do seu corpo, de fora para dentro, durante dois dias. Hiberna no inverno e sai na primavera, depois de passar por uma metamorfose.
Observando esse fenômeno da natureza, Gustavo percebeu que o fio dos casulos diferenciados morfologicamente abandonados pela crisálida ao virar borboleta, apresentavam como diferencial formas irregulares, com texturas e espessuras imprevisíveis, que poderiam trazer para a seda um novo resultado final, de aspecto rústico e orgânico.
Modos do fazer
O cozimento dos casulos que faz soltar o fio da seda, a secagem das meadas coloridas a céu aberto e irregularidades das tramas tecidas nos teares manuais compõem etapas do processo sinérgico da produção artesanal, que contribuiu para definir a identidade singular do O Casulo.
Fiação artesanal / Foto: W. Gravaluz
Secagem das meadas coloridas a céu aberto / Foto: Fabio Pitrez
A filosofia de reaproveitamento da matéria-prima foi estendida ao processo de tingimento dos fios, que passaram a receber coloração 100% vegetal, a partir da utilização de folhas, raízes, serragens, sementes, cascas e flores descartadas por fornecedores.
Tingimento / Foto: W. Gravaluz
O trabalho ainda integra a comunidade local e oferece treinamento nas diversas etapas da produção, gerando trabalho, renda e a circularidade entre os saberes.
Conversei com a designer têxtil da equipe,
Glicínia Setenareski, que explica que a seda orgânica pode ser associada a outras fibras naturais para composição de novos produtos como a juta, o sisal e o rami, utilizados não só na cadeia da moda, como para materiais de ambientação e decoração. Abaixo ela conta mais do processo produtivo da seda e suas aplicações:
1.Como funciona a fiação artesanal de seda?
[Glicínia] Iniciamos pela seleção dos casulos pois cada formato de casulo é destinado para um tipo de fio. Depois inicia-se o cozimento, sendo que cada tipo de casulo possui temperaturas de água diferentes. Após esta etapa é feita a fiação artesanal com inserção das misturas das águas. Lembrando que a empresa O Casulo Feliz tem reaproveitamento da água (captação da água da chuva / reutilização da água utilizada / poço artesiano).
Urdindo o tear / Foto: W. Gravaluz
Tecendo / Foto: Fabio Pitrez
2. Para que público os produtos do Casulo Feliz está focado? Compreende também negócios menores?
[Glicínia] Decoração e moda é nosso foco. O perfil do consumidor O Casulo Feliz é:
- busca diminuir o impacto ambiental,
- tem um
life style com identidade nas atitudes em grupo (geralmente pessoas que fazem trabalhos voluntários),
- é apreciador do luxo ecológico,
- gosta de produtos artesanais com identidade (artesanal não é artesanato),
- tem orgulho em ser brasileiro e buscam produtos com a iconografia do pais,
- Gostam do DNA do Luxo (produtos selecionados, com identidade e feito a mão).
Quando falamos em pequenas quantidades existe sim a possibilidade porém o prazo de entrega é maior. Existe também a possibilidade de desenvolvimento de produtos específicos para a necessidade do mercado. Tudo é uma questão de comunicação entre ambas as empresas.
3. Como a indústria pode combinar técnicas artesanais com a tecnologia em seus mecanismos de produção?
[Glicínia] Você tem que destruir para reconstruir. Desenvolvemos o fio fiado à mão. E para ter estes fios nos teares semi- industriais com os desenhos que sinto necessidade no mercado, preciso muitas vezes desmontar, destruir peças do tear e depois adaptar para ter o resultado final.
4. Como é feito o tingimento natural dos tecidos? O processo de extração dos corantes naturais e a sua reposição ao meio ambiente também é observado? Como é feita a fixação da cor?
[Glicínia] Primeiro é a captação das flores, cascas, serragens, folhas do estado (no nosso caso PR). Depois nos fermentamos esta casca, flor, folha ou serragem até se transformar em um líquido, como se fosse um chá. Quando a cor está pronta, mergulhamos os fios dentro dos tachos. Na fixação é utilizado sal marinho, acido acético (vinagre). Demora em torno de 3 dias todo o processo.
5. Li que participam de um projeto chamado Seda Justa, como funciona?
[Glicínia] Estamos na rota da seda brasileira. A nossa região (norte do Paraná) equivale a 87% da produção da seda na América Latina. No noroeste do Paraná foi fundado o
Vale da Seda que é um movimento para as mulheres dos agricultores terem renda. Dentro deste programa, que iniciou em 2005 (ano do Brasil na França), estas pessoas dão continuidade às tradições culturais, desenvolvem uma profissão e tem um renda justa.
6. Como está a absorção do mercado de moda aos produtos ecológicos?
[Glicínia] Sustentabilidade não é moda passageira. Há 10 anos passados alguns estilistas europeus começaram a levantar esta bandeira. Nos dias de hoje muitos deles possuem coleções que no mínimo 10% da coleção é sustentável.
Este é o caso de
Vivienne Westwood e
Stella McCartney. Já no Brasil temos algumas marcas que tem esta pegada ecológica há um bom tempo, como a Osklen, que todo desfile tem os seus e-fabrics, a
Animale, que busca materiais ecológicos e tecnológicos,
Ronaldo Silvestre, que iniciou sua carreira com a pegada sustentável, entre outros.
Modelo com gaze de seda elaborado pela Osklen fez parte do lançamento do label e-fabrics na edição de inverno da SPFW/2007. Atualmente, o vestido está em um museu de tecidos étnicos, em Paris / Foto: Arquivo Osklen
Tênis Osklen de seda ecológica O Casulo Feliz / Foto: Arquivo Osklen
Acima, a seda como revestimento e o felpudo no encontos das cadeiras nos ambientes assinados por Ivan Wodzinky para a Casa Cor Paraná 2008/09 / Foto: Luiz Roberto Meira
Glicínia Setenareski
Glicínia Setenareski / Foto: Bulla Jr
Glicínia Setenareski é Formada em Design, Artes e Paisagismo (Centro Educacional de Design, Artes e Paisagismo do Paraná). Seu currículo tem experiências como: Casa cor RS, SC, PR, SP, MS,MT, BA, RJ e BH (2002 a 2010); Ano do Brasil na França (2005); 2 anos trabalhando como designer do cenário e figurino do programa People – na TV Band Maringá; SPFW: Mario Queiroz, Isabella Capeto, Alexandre Hercochvith, Erika Ikizili, Osklen, Animale, Maria Bonita entre outras marcas (2003 a 2011); Desenvolvimento de designers com a comunidade Rica Trama em Costa Rica-MS pelo SEBRAE em 2010. Suas pesquisas partem das necessidades humanas e da observação do comportamento atua (religião, alimentação) reflexão e natureza.
Mais informações:
O Casulo Feliz
web:
www.ocasulofeliz.com.br
Rua Pref. Sincler Sambatti, 5646
Conjunto João de Barro I
CEP: 87055-020
Telefone: (44) 3226-1580
Maringá - Paraná
Por Flávia Vanelli
Flávia Vanelli é publicitária especialista em Moda e Design pelo curso de pós-graduação em Criação e Desenvolvimento de Produtos do Orbitato - Instituto de estudos em Arquitetura, Moda e Design, de Pomerode - Santa Catarina. Atua como designer e tem forte interesse pelo desenvolvimento sócio-ambiental. Durante a especialização, desenvolveu uma Ecomatéria formada por reaproveitamento de sacolas plásticas que, após aquecidas, transformam-se em folhas de um novo material para aplicação em objetos e roupas. Seu projeto pode ser visto em: www.ratoroi.com.br
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