Notícia cadastrada em: 26/10/2011 - 17:42:05
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Flávia Vanelli: a cor da natureza

O Brasil é o único país do mundo cujo nome veio de uma árvore, o Pau-brasil (Caesalpinia echinata). A extração desta madeira, que desencadeou a primeira atividade econômica empreendida pelos portugueses em nossas terras, já era encontrada nas Índias Orientais, dentre as variedades de plantas que possibilitavam, por força de sua cor avermelhada, a produção de um corante, igualmente vermelho.

Na Europa, para onde eram levados e destinados ao uso, tanto a madeira quanto o corante eram denominados "brecilis", "brezil", "brazily" ou "brasil", todos nomes derivados da palavra latina "brasília" que significa "cor de brasa" ou "vermelho".

Satisfazendo principalmente a vaidade da civilização europeia, ao abastecer os pigmentos para o tingimento dos tecidos de cor púrpura, sinônimo de dignidade e nobreza, pode-se dizer que o Brasil já desde o seu descobrimento esteve envolvido com o mercado de moda.

Durante todo o período colonial os exploradores europeus ignoravam que cada árvore derrubada havia percorrido aproximadamente 100 anos de existência até atingir a condição de corte. De forma brutal e incontrolada, estima-se que nos 380 anos de sua exploração foram derrubadas 72 bilhões de árvores distribuídas ao longo da costa brasileira - espécie representante da Mata Atlântica que se estendia desde o Maranhão até Santa Catarina.

Ao contrário daquela época, hoje em dia, a extração de corantes e pigmentos naturais pode ser uma atividade sustentável, quando realizada em base a muita pesquisa, envolvendo a geração de trabalho e renda nas áreas rurais, por meio de cultivo e técnicas de manejo florestal, principalmente quando produzidos a partir de fontes renováveis e menos agressivas ao meio ambiente quando comparada aos corantes sintéticos. Abaixo conversei com Eber Lopes Ferreira, sócio-diretor da empresa Etno Botânica localizada em São Paulo, que nos conta um pouco sobre as possibilidades de aproveitar de forma sustentável, a exuberante biodiversidade de nossa flora, porte e beleza de flores e frutos.



Tingimento natural obtido através de Pau-brasil (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                          
Flávia Vanelli - Conte um pouco sobre o trabalho da Etno Botânica.

A Etno Botânica desenvolve no Brasil programas ligados a produção de Algodão Orgânico junto a agricultura familiar no Nordeste e nos estados que compreendem o Cerrado Brasileiro, bem como é detentora de know-how na produção de linha completa de corantes vegetais, pigmentos naturais e auxiliares têxteis de origem vegetal, produzidos a partir de fontes renováveis, em base a conceitos e critérios de manejo florestal e agricultura biológica (sabões, fixadores, amaciantes e outros).

Como suporte para a produção desta linha de produtos, nossa empresa mantém uma rede inovadora de novos provedores de matérias-primas obtidas a partir de fontes renováveis, que tem forte papel na inclusão social de aproximadamente 1.400 famílias na região do Cerrado (projeto premiado pela Fundação Banco do Brasil na categoria de Tecnologia Social) e mais de 450 famílias de pequenos agricultores nos estados do Nordeste (Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco), pequenos produtores de algodão orgânico.

Buscamos parceiros que tenham interesse no desenvolvimento de produtos que tenham forte apelo sócio-ambiental, onde possamos fornecer corantes e pigmentos naturais, como também transferir tecnologia para tingir e/ou estampar tecidos em algodão orgânico e em outras produtos têxteis com conteúdo ecológico.

Flávia Vanelli - Como é feito a fixação dos corantes naturais nos tecidos? Como fica a solidez das peças?

A Etno Botânica detém know-how em base a pesquisa realizada nos últimos 20 anos. A tecnologia que utilizamos para a construção das cores e sua fixação a partir de extratos vegetais é completamente diferente dos processos adotados pela indústria de corantes sintéticos desenvolvida para têxtil, nesta cada tipo de fibra tem seu corante químico específico, onde o corante sintético utilizado para tingir lã não pode ser utilizado para tingir algodão, por exemplo.

Já no caso dos corantes naturais os mesmos extratos, dependendo da técnica empregada tinge todas as fibras naturais, artificiais e inclusive muitas fibras sintéticas como a poliamida como exemplo.

Com relação a solidez das cores obtidas, assim como na industria química existem corantes sintéticos de baixa qualidade e outros de excelente qualidade, o mesmo ocorre entre os naturais. Os corantes de urucum e curcuma por exemplo apresentam baixa solidez a luz nos tingimentos em algodão. Dependendo do tipo de aplicação e finalidade servirá o têxtil, faz-se necessário realizar uma criteriosa seleção de corantes para cada tipo de aplicação.

Tingimento natural índigo (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                   

Tingimento natural clorofila (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
               
Flávia Vanelli - De onde vêm os corantes? Como são extraídos?

Cada corante ou pigmento tem como matéria-prima uma planta que lhe dá origem, esta pode ser uma raiz, folha, semente, casca de fruto, casca de árvore ou mesmo resíduos de madeiras reflorestadas. Estas plantas podem ser cultivadas ou nativas, sendo nativa que ocorre de forma espontânea adotamos normas e critérios em base a manejo florestal e capacitamos as famílias coletoras de comunidades tradicionais que habitam em áreas reconhecidas como RESEX's (Reservas Extrativistas).

Cada matéria-prima que faz parte de nossa linha de produtos passa por diferentes processos em seu beneficiamento e transformação até a forma que é comercializada. Em nossa linha hoje trabalhamos com 18 espécies nativas e 12 espécies cultivadas nos diferentes biomas brasileiros.

Flávia Vanelli - Que tipos de tingimentos vocês realizam?

No Ateliê em São Paulo realizados diversos tipos de tingimentos, todos em base técnicas tradicionais mas com uma "pegada" mais contemporânea, visando atender as mais variadas demandas que nos são solicitadas. Realizamos no Ateliê tingimentos aplicando diferentes técnicas de reserva (shibori, amarras, batik e outras) tanto em peças prontas quanto em panôs (para posterior confecção), fazemos também técnicas de degradê, sobre tingimento, entre outros.

A Etno Botânica também realiza tingimentos em escala industrial em cooperação com lavanderias industriais, para atender grandes quantidades, principalmente para tingimentos básicos em uma cor só, sem nuances e efeitos diferenciados. Bem como realizamos tingimentos de tecidos em tinturarias industriais para atender solicitações de clientes que tem por hábito confeccionar sobre tecidos tintos (já coloridos).


Tingimento contemporâneo realizado com extrato de Pau de Ferro (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                         
Flávia Vanelli - Além de realizar os tingimentos, vocês também vendem os corantes naturais separadamente? É possível escolher via internet e fazer os pedidos?

A Etno Botânica comercializa sua linha de produtos tanto para o mercado de varejo como para grandes indústrias, mas esta venda depende do conhecimento de como utilizar nossos produtos, no varejo vendemos para ex-alunos que receberam capacitação no nosso Ateliê em São Paulo. Já para as indústrias existe uma fase inicial onde realizamos a transferência de know-how em base a contrato de sigilo e confidencialidade de informações. Passada esta fase passamos a fornecer normalmente nossos produtos para as indústrias parceiras.

Adoto o termo parceria, visto que para o fornecimento regular, dependendo do volume que este novo cliente irá consumir, precisamos construir toda a cadeia de suprimentos para cada corante em base a estas quantidades. Assim como no caso da produção de algodão orgânico, a Etno Botânica formaliza contrato de compra antecipada das matérias-primas que serão utilizadas na produção de cada corante ou auxiliar têxtil utilizados nas receitas de tingimento.

Diversidade de cores obtidas através de pigmentos naturais em meadas de seda (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                   
Cartela de cores puras (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                            
Flávia Vanelli - Vocês oferecem cursos de tingimento na Etno Botânica? Qual é o programa das aulas?

Sim, oferecemos 02 formatos: Oficinas com carga horária de 32 horas que acontecem durante fins de semana (sábados e domingos), perfazendo um total de quatro dias em período integral.

E o outro formato são workshops de 01 dia de duração, onde adotamos para cada dia da semana uma cor diferente. Na segunda-feira trabalhamos os tons do vermelho, terças o laranja e castanhos, quartas os amarelos, quintas os verdes e sextas azuis e violeta. O aluno pode optar em fazer apenas uma cor (01 dia) ou todas as cores (01 semana).

No conteúdo das oficinas e workshops os alunos aprendem nas aulas teóricas sobre a origem das cores naturais, recebem orientação básica sobre fibras têxteis, todo o conteúdo teórico das técnicas de tingimento com plantas e nas aulas práticas aprendem a extrair as cores das plantas tintoriais, preparar as tinturas, a preparar os fios e tecidos em purgas (limpeza) e nos mordentes, realizar os tingimentos de 16 cores (cada uma oriunda de uma planta diferente) e concluem com a elaboração de seu próprio mostruário e receitas respectivas.

Aulas teóricas e práticas que capacitam o aluno a preparar os tingimentos a partir de diferentes pigmentos naturais (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                        
Flávia Vanelli - Quais são os clientes com quem já trabalharam? Fale um pouco sobre o trabalho de consultoria e serviços.

Desde que a Etno Botânica foi fundada, há apenas três anos, realizamos diversos trabalhos para muitas marcas e empresas.

Realizamos uma seleção criteriosa quando somos procurados para desenvolver um projeto ou mesmo apenas um tingimento. Entre as marcas que podemos citar estão Veja, Osklen, Gilda Midani, Joyfull, Tirol, Chammomila Baby, Coletivo Verde, Eden, 02 Primas e outras.

Tingimento natural índigo para a Osklen (Foto: Divulgação / Etno Botânica)
                       
Existe hoje uma crescente procura junto a industria têxtil e o mercado de moda por projetos, produtos e serviços que tenham como base a responsabilidade social e o respeito ao meio ambiente. Mas a grande maioria destas empresas veem estes temas como ferramentas de propaganda e marketing, sem de fato assumir responsabilidades ou compromissos inerentes a estas questões. Sempre que somos procurados para realizar trabalhos de consultoria e serviços nesta área, antes de qualquer coisa procuramos avaliar o real engajamento da empresa nestes temas. São poucos os líderes deste segmento que pensam de forma cíclica, a maioria pensa linearmente, de forma cartesiana e fragmentada.

Mais raro ainda é o pensar na empresa como um conjunto de interações vivas, principalmente com seus fornecedores e o com o meio ambiente que a cerca é bastante raro no Brasil. Quando são abordados aspectos como a construção de cadeias produtivas transparentes de todos os insumos e matérias-primas que entram fábrica a dentro, ou mesmo implantação de programas de gestão ambiental onde o foco é a qualidade de vida dos seus colaboradores, com programas de reciclagem de todos os resíduos sólidos e efluente zero. Este termo "ser sustentável" tão utilizado nas propagandas das empresas ainda está em gestação no Brasil. A Etno Botânica está em busca de parceiros para fazer nascer neste segmento programas e projetos realmente sustentáveis.

Saiba mais:
Etno Botânica Pesquisa e Inovação Tecnológica Ltda
Rua dos Moras, 469 - Vila Madalena
CEP 05434-020 - São Paulo-SP - Brasil
Tel: (11) 3812-1616 - Celular: (11) 6369-8382
e-mail: corantesnaturais@gmail.com
Facebook: etno.botanica
www.etno-botanica.com

Por Flávia Vanelli


      
Flávia Vanelli é publicitária especialista em Moda e Design pelo curso de pós-graduação em Criação e Desenvolvimento de Produtos do Orbitato - Instituto de estudos em Arquitetura, Moda e Design, de Pomerode - Santa Catarina. Atua como designer e tem forte interesse pelo desenvolvimento sócio-ambiental. Durante a especialização, desenvolveu uma Ecomatéria formada por reaproveitamento de sacolas plásticas que, depois de aquecidas, transformam-se em folhas de um novo material para aplicação em objetos e roupas. Seu projeto pode ser visto em: www.ratoroi.com.br

Artigos assinados são de responsabilidade dos autores, não expressando necessariamente a opinião do Portal mídiamoda.
 

comentários

3 pessoas comentaram a notícia Flávia Vanelli: a cor da natureza
Nilma Raquel Postado em: 10/11/2011 - 16:40:17
Que bacana!!!
Maysa Postado em: 27/10/2011 - 15:45:23
Maravilha de entrevista!!!
Gabriela Lenzi Postado em: 27/10/2011 - 08:53:12
Flávia! Gostei muito da sua matéria! Me interesso de forma especial por tingimentos naturais e aprendi muito com seu texto! Obrigada! Parabéns! Um grande abraço
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